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terça-feira, 16 de novembro de 2010

FMI

Falamos do FMI como se fosse a salvação da pátria. Saberemos, nós, os portugueses, os que falamos de cor e em vão o que é realmente o FMI? Eu sei pouco, muito pouco...mas sei que é cego, que não olhará aos que mais precisam, que será arrasador...
Seria necessário chegarmos até aqui? Julgo que não.
Julgo que se os portugueses e portuguesas se unissem e tomassem consciência da sua condição de classe enquanto trabalhadores e contribuintes e preservassem os seus direitos e lutassem também pela preservação dos mesmos, e exigissem ao estado as suas obrigações enquanto Estado Social, julgo que não estaríamos neste ponto.
O que é certo é que durante anos e anos colocámos nas mãos de "alguns ilustres iluminados" o futuro do nosso país. Deixámos que decidissem por nós e olhámos para o lado. Com a desculpa de que não valeria a pena porque ninguém é bom, ninguém presta, que são todos iguais. E o futebol é que nos dá alegrias.
Então? Não somos nós os detentores do Voto? Não estará nas nossas mãos mudar "isto"?
Todos os dias e durante anos a fio vimos impávidos e serenos a economia definhar...começou pela agricultura, depois pelas pescas, depois pela industria passando pelo comércio e agora já estamos nos serviços...esta crise não começou agora, já tem anos! Desmantelaram peça a peça a sociedade...estamos nas mãos das grandes multinacionais, somos o rato nas mãos de um grande gato gordo e insaciável.
É pena! mas está na hora de mudar alguma coisa...e pode ser pela nossa consciência e pelo papel que podemos ter no nosso dia a dia e do que queremos dar aos nossos filhos. Se nós sofremos, eles sofrerão mais!
Em tempos alguém lutou por nós e tivemos a Liberdade...entretanto deixamos que a roubem...no futuro quem lutará por nós (portugueses), senão nós?


FMI – José Mário Branco

Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos…
É o internacionalismo monetário!

FMI

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu ‘attaché-case’ sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem ‘on the rocks’ do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico harakiri
FMI Panegírico pró lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si, palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, celulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Um encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI …

Entretem-te filho, entretem-te,
não desfolhes em vão este malmequer que
bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalte-quer-messe gigantesca,
vem-te bem, bem te vim,
vim na cozinha, vim na casa-de-banho,
vim-me no Politeama, vim-me no Águia D’ouro, vim-me em toda a parte,
vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão,
olha os pombinhos pneumáticos como te arrulham por esses cartazes fora,
olha a música no coração da Indira Gandhi,
olha o Moshe Dayan que te traz debaixo d’olho,
o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho?
nós somos um povo de respeitinho muito lindo,
saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho?

Consolida filho, consolida,
enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde.

Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo,
o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos,
com’ò Astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é?
Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar,
para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta desestabilização filha-da-puta, não é filho?
Pois claro!

E estás aí a olhar para mim, estás aí a ver-me dar 33 voltinhas por minuto,
pagaste o teu bilhete,
pagaste o teu imposto de transacção
e estás a pensar lá com os teus zodíacos: “Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é?” né filho?

Pois não é verdade que tu és um herói desde que nasceste?
A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote!
Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho?
Onde está o teu Extremo Oriente, filho?
Aniki-bé-bé, aniki-bó-bó, tu és Sepúlveda, tu és Adamastor,
pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida!

Entretem-te filho, entretem-te!
Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho,
trabalhinho, porreirinho da Silva,
e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho?

A-one, a-two, a-one-two-three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI …

Camòniú sanòvabiche! Camóne beibi a ver se me comes!
Camóne Luís Vaz, amanda-lhe co’os decassílabos que eles já vão saber o que é meterem-se com uma nação de poetas!
E zás! enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares,
zás! enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal,
zás! enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro,
zás! enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros,
zás! enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer
e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen,
ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu,
um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho?
Pois, irreversível, pois claro, irreversívelzinho,
pluralismo a dar com um pau,
nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho?
Olha que porra, deixa lá correr o marfil, homem, andas numa alta, pá,
é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é?

Preocupações, crises políticas pá?
A culpa é dos partidos pá!
Esta merda dos partidos é que divide a malta pá,
pois pá, é só paleio pá, o pessoal não quer é trabalhar pá!
Razão tem o Jaime Neves pá!
(Olha deixaste cair as chaves do carro!)
Pois pá!
(Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?)
É pá, deixa-te disso, não desestabilizes pá!
Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata.
Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril,
esta confusão pá,
a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa…
Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago,
mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah?
Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah?
Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah?
Meia dúzia de líricos, pá,
meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá,
isto é tudo a mesma carneirada!

Oh sr. guarda venha cá – á,
venha ver o que isto é – é,
o barulho que vai aqui – i,
o neto a bater na avó – ó,
deu-lhe um pontapé no cu, né filho?

Tu vais conversando, conversando,
que ao menos agora pode-se falar…
…ou já não se pode?
Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah?
Estás desiludido com as promessas de Abril, né?
As conquistas de Abril!
Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho?
E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, “não é nada comigo, não é nada comigo”, né?
E os da frente que se lixem…
E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada,
precisas de paz de consciência,
não andas aqui a brincar, né filho?
Precisas de ter razão,
precisas de atirar as culpas para cima de alguém
e atiras as culpas para os da frente,
para os do 25 de Abril,
para os do 28 de Setembro,
para os do 11 de Março,
para os do 25 de Novembro, para os do…
… que dia é hoje, hã?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI …

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho?
“Todos temos culpas no cartório”, foi isso que te ensinaram, não é verdade?
Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande. Tenho dito.
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade?
Quer-se dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular!
Somos todos muita bons no fundo, né?
Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?
Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas,
estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá,
as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole
e o Zé é que se lixa,
cá o pintas é sempre mexilhão…

Eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto,
viva o Porto, viva o Benfica,
Lourosa! Lourosa!
Marrazes! Marrazes!
Fora o arbitro! gatuno! Qual gatuno, qual caralho!

Razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho?
Entretem-te, filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs
que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores,
entretem-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais,
entretem-te, filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho,
entretem-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar,
entretem-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes,
entretém-te, filho,
e vai para a cama descansado
que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante,
enquanto tu adormeces a não pensar em nada,
milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos
com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!
Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar da tua vida com o Jimmy Carter,
o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II,
tudo corre bem,
a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas.
A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias,
ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Muel
que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou!

Vão-te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, estás tu a ver? Que tens tu a ver com isso, não é filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é?
Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer:
- votas à esquerda moderada nas sindicais,
- votas no centro moderado nas deputais,
- e votas na direita moderada nas presidenciais!
Que mais querem eles? que lhes ofereças a Europa no natal?!
Era o que faltava!

É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes?
toma, para safado, safado e meio, né filho? nem para a frente nem para trás!
e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né?
Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega.

Entretem-te meu anjinho, entretem-te,
que eles são inteligentes,
eles ajudam,
eles emprestam,
eles decidem por ti,
decidem tudo por ti:
- se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia,
- se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão,
descansa que eles tratam disso,
- se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou se hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!

Descansa, não penses em mais nada,
que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar!

Descontrai baby, come on descontrai,
afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa
e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas!

Piramiza filho, piramiza,
antes que os chatos fujam todos para o Egipto,
que assim é que tu te fazes um homenzinho
e até já pagas multa se não fores ao recenseamento.
Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá!

Dá-lhe no Travolta,
dá-lhe no discossáunde,
dá-lhe no pop-chula,
pop-chula pop-chula,
yeah yeah, jo-ta-pi-men-ta-for-e-ver!

Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti!
Não te chega para o bife? – antes no talho do que na farmácia!
Não te chega para a farmácia? – antes na farmácia do que no tribunal!
Não te chega para o tribunal? – antes a multa do que a morte!
Não te chega para o cangalheiro? – antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir,
cabrões de vindouros!

Hã? Sempre a merda do futuro! E eu que me quilhe!
Pois, pá!
Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã?
Que é que eu ando aqui a fazer?
Digam lá! e eu? José Mário Branco, 37 anos,
isto é que é uma porra!
anda aqui um gajo cheio de boas intenções,
a pregar aos peixinhos,
a arriscar o pêlo,
e depois?
É só porrada e mal-viver, é?
“O menino é mal criado”, “o menino é pequeno-burguês”, “o menino pertence a uma classe sem futuro histórico”…

Eu sou parvo ou quê?
Quero ser feliz, porra,
quero ser feliz agora,
que se foda o futuro,
que se foda o progresso,
mais vale só do que mal acompanhado!

Vá: mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!

Deixem-me em paz, porra,
deixem-me em paz e sossego,
não me emprenhem mais pelos ouvidos, caralho,
não há paciência, não há paciência,
deixem-me em paz caralho,
saiam daqui,
deixem-me sozinho só um minuto,
vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta!

Deixem-me sozinho, filhos da puta,
deixem só um bocadinho,
deixem-me só para sempre,
tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega,
sossego porra, silêncio porra,
deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só,
deixem-me morrer descansado.

Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado,
eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto,
eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa,
deixem-me só porra!
rua!
larguem-me!
desòpila o fígado,
arreda!
t’arrenego Satanás!
filhos da puta!

Eu quero morrer sozinho ouviram?
Eu quero morrer,
eu quero que se foda o FMI,
eu quero lá saber do FMI,
eu quero que o FMI se foda,
eu quero lá saber que o FMI me foda a mim,
eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI,
o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões,
o FMI não existe,
o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma,
o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio,
rua!
desandem daqui para fora!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!

oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe…

(…)
Mãe, eu quero ficar sozinho…
Mãe, não quero pensar mais…
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer,
ir-me embora, sem sequer ter de me ir embora.
Mãe, por favor!
Tudo menos a casa em vez de mim,
útero maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo…
de quê mãe?

Diz, são coisas que se me perguntem?

Não pode haver razão para tanto sofrimento.

E se inventássemos o mar de volta?
E se inventássemos partir, para regressar?
Partir, e aí, nessa viajem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar,
partida de acordar, abrir os olhos,
numa ânsia colectiva de tudo fecundar,
terra, mar, mãe…

Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto,
lembrar – nota a nota – o canto das sereias,
lembrar o “depois do adeus”,
e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal,
lembrar cada lágrima,
cada abraço,
cada morte,
cada traição,
partir aqui,
com a ciência toda do passado,
partir, aqui, para ficar…

Assim mesmo,
como entrevi um dia,
a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila,
o azul dos operários da Lisnave a desfilar,
gritando ódio apenas ao vazio,
exército de amor e capacetes.

Assim mesmo, na Praça de Londres, o soldado lhes falou:
- Olá camaradas, somos trabalhadores, e eles não conseguiram fazer-nos esquecer; aqui está a minha arma para vos servir.

Assim mesmo,
por trás das colinas onde o verde está à espera,
se levantam antiquíssimos rumores,
as festas e os suores,
os bombos de Lavacolhos,
assim mesmo senti um dia,
a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila,
o bater inexorável dos corações produtores, os tambores.
- De quem é o carvalhal?
- É nosso!

Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso.
Neste cais está arrimado o barco-sonho em que voltei.
Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena.

Diz lá: valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe.
No fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco.
Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos,
o meu canto e a palavra.
O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram.
A minha arte é estar aqui convosco
e ser-vos alimento e companhia
na viagem para estar aqui
de vez.

Sou português,
pequeno-burguês de origem,
filho de professores primários,
artista de variedades,
compositor popular,
aprendiz de feiticeiro.
Faltam-me dentes.

Sou o Zé Mário Branco,
37 anos, do Porto,
muito mais vivo que morto.

Contai com isto de mim
para cantar e para o resto.

Este texto encontra-se n'O Arrastão.

sábado, 1 de maio de 2010

Ao 1.º de Maio

Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

Bertolt Brecht

terça-feira, 27 de abril de 2010

POBRES DOS NOSSOS RICOS, por Mia Couto

A maior desgraça de uma nação pobre é que
em vez de produzir
riqueza, produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.
Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem pos
sui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e
dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem d
inheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos". Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a
essa mesma desordem (...) MiaCouto

(uma sugestão do amigo Eduardo Dores)
as imagens são de Sebastião Salgado

Mia Couto ao escrever estas palavras referia-se à realidade africana. No entanto, nas nossas sociedades ditas industrializadas, o flagelo da pobreza e da corrupção é igualmente visivel e até "aceitável" ao ponto de a encararmos como "normal". Mas não o é.
quinta-feira, 22 de abril de 2010

Revolução

A Revolução faz 36 anos... e esta é a minha homenagem aos que lutaram em clandestinidade, abdicaram da sua identidade, àqueles que sofreram a tortura às mãos da pide, aos que tombaram, aos que nunca desistiram do ideal comum, o de LIBERDADE!
Pelas palavras de Sophia de Mello Breyner:

25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Relembrar Abril, é falar de Revolução!

A Revolução é contínua, pela mudança de mentalidades e pela adequação aos tempos, nunca esquecendo os nossos direitos nem os nossos deveres.
Revolução é a procura constante de uma vida melhor e com qualidade, é transformar a sociedade, numa sociedade mais humanizada, é promover um futuro melhor para os nossos filhos.

25 DE ABRIL SEMPRE!




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Carta da Terra

P R E Â M B U L O
Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.
Terra, Nosso Lar
A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.
A Situação Global
Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.
Desafios Para o Futuro
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano.
Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.
Responsabilidade Universal
Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual a dimensão local e global estão ligadas.
Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem- estar da família humada e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida, e com humildade considerando em relaçao ao lugar que ocupa o ser humano na natureza.
Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.
P R I N C Í P I O S
I . RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DA VIDA
1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.
2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
b. Assumir que o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder implica responsabilidade na promoção do bem comum.
3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada um a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a consecução de uma subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.
4. Garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.
a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem, a longo prazo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra.
Para poder cumprir estes quatro amplos compromissos, é necessário:
I I . INTEGRIDADE ECOLÓGICA
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.
a. Adotar planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável em todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçadas.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e prevenir a introdução desses organismos daninhos.
e. Manejar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de formas que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
f. Manejar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que diminuam a exaustão e não causem dano ambiental grave.
6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.
a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis danos ambientais mesmo quando a informação científica for incompleta ou não conclusiva.
b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental.
c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas consequências humanas globais, cumulativas, de longo prazo, indiretas e de longo alcance.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.
7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos recursos energéticos renováveis, como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal a assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.
8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido.
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuam para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.
I I I . JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA
9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.
a .Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não- contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos nacionais e internacionais requeridos.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência sustentável, e proporcionar seguro social e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter- se por conta própria.
c. Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem, e permitir-lhes desenvolver suas capacidades e alcançar suas aspirações.
10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o
desenvolvimeto humano de forma eqüitativa e sustentável.
a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e isentá-las de dívidas internacionais onerosas.
c. Garantir que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas conseqüências de suas atividades.
11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência desaúde e às oportunidades econômicas.
a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a educação amorosa de todos os membros da família.
12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.
a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas a formas sustentáveis de vida.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seu papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.
IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça.
a. Defender o direito de todas as pessoas no sentido de receber informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
b. Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações na tomada de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de assembléia pacífica, de associação e de oposição.
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos e judiciais independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus própios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.
14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no sentido de aumentar a sensibilização para os desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência sustentável.
15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de desofrimentos.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
c. Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.
16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.
a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao nível de uma postura não- provocativa da defesa e converter os recursos militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em massa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.
O C A M I N H O A D I A N T E
Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.
Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca iminente e conjunta por verdade e sabedoria.
A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não- governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.
Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento.
Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008

...já que vamos às compras...

Estou com pouco tempo, queria só dizer que, já que nós (ou o governo por nós, que somos o estado) vamos às compras, queria antes comprar um sistema privado de saúde! É que bancos já temos... E até funcionam!! Mas o Sistema Nacional de Saúde tem falta de médicos e de instalações... Ainda por cima o BPN está falido! Para que é nós queremos um banco cheio de dívidas!?
*
Não será uma ideia assim tão descabida, se considerarmos que o banco em apuros, pertence a um grupo económico, o Grupo SNL. E que este Grupo têm mais frentes de negócio, nomeadamente na Saúde e nos Seguros que vão de vento em popa (FONTE: Agência Financeira), então fazíamos assim, comprávamos antes o Grupo Português de Saúde (que pertence ao Grupo SNL)... E o tal Grupo, com o dinheiro desta venda, salvava o seu Banco roto!
*
É que, já que temos que gastar dinheiro para resolver esta situação aos "pobres" accionistas, empresários e clientes, podíamos aproveitar para melhorar a situação dos nossos "ricos" avós mais débeis, das mães que dão à luz, e de tantas outras crianças e adultos que precisam de cuidados de saúde, mas não podem ou não querem pagar mensalidades para os ter.
*
Vá lá... Até estamos perto do Natal, venha de lá esse espírito!
*
Ah, é verdade! Já que falamos em investimentos... Aqui há tempos, quando rebontou a bolha à crise, soube-se que o Fundo de pensões da Segurança Social caiu 3,14 por cento... Ou seja, o nosso governo coloca nos mercados especulativos (bolsa) parte das nossas contribuições ("A carteira do fundo de pensões do Estado é das que tem melhor rentabilidade a médio, longo prazo. É composta por 21 por cento de acções, 50 por cento de dívida pública portuguesa, 25 por cento de outra dívida e quatro por cento de imobiliário." FONTE: RTP)!!! Bem... Em primeiro lugar, espero que depois desta não venham outra vez falar da insustentabilidade da Segurança Social... E depois, eu desconfio um bocado da bolsa (pelos vistos com relativa razão), ficava muito mais descansada se não andassem a brincar com a minha contribuição!!!
MDC
terça-feira, 21 de outubro de 2008

...cozinhados à portuguesa...


Mas afinal, a candidatura só engloba Espanha, Itália, Grécia e Marrocos... Que desolação!!!

Mas e... e... e as nossas pataniscas com arroz de feijão malandrinho!? E o nosso cozido à portuguesa, o bacalhau à Lagareiro e o Arroz de Marisco!? Até mesmo o nosso arroz de pato, a canja de galinha, o caldo verde... os enchidos!

Para não falar na nossa doçaria... Ai, meu rico Pão de Ló de Alfeizerão, minhas fofas Tortas de Azeitão, os célebres pastéis de nata!!!

Ai, já estou a engordar só de pensar nestas delícias!

Eu adoro pão de alho, gosto muito de pizzas, massas, e acho graça à paella ou tortilla...

Mas a nossa gastronomia é... é... simplesmente fabulosa! As nossas receitas deviam ser todas impressas e guardadas lá no Pólo Norte juntamente com as sementes... (para que é vão servir os alimentos sem as receitas deliciosas apuradas ao longo de anos e anos de experiência!?)

Também quero que a UNESCO a prove!
MDC
sexta-feira, 17 de outubro de 2008

...revisão PDM #04: PATRIMÓNIO...

...definição de imóveis a proteger...
Em relação à revisão do PDM de Vila Franca de Xira... (que ando a estudar nos meus escassinhos tempos livres... e por isso 'tou com uma soneira descomunal hoje!!!)... existem decisões importantes quanto ao património edificado!
*
Ou seja, no PDM ficam identificados todos os imóveis classificados, em vias de classificação, zonas de protecção e imóveis com interesse (que são alvo de relativa protecção, o que é melhor que nenhuma!)... Sendo assim, proponho-vos que se pronunciem sobre algumas situações que identifiquei:
*
#01 Bairro Fabril das OGMA (Sobralinho/Alverca)
PROPOSTA NA REVISÃO DO PDM » Classificação do Bairro Fabril das OGMA Sobralinho (transita do PDM em vigor para o revisto) »
Se alguém souber onde é o Bairro Fabril das OGMA no Sobralinho digam-me, por favor que eu gostava de conhecer... Obrigada!
FUNDAMENTOS DA CRÍTICA » desconheço a existência dum Bairro Frabril das OGMA no Sobralinho, mas existindo um em Alverca, que representa características patrimoniais a preservar, deveria ser considerado. Se existirem os dois que sejam ambos designados.
PROPOSTA DE ALTERAÇÃO » incluir Bairro Fabril das OGMA (Alverca) na lista de "Outros Imóveis com Interesse - Património Industrial"
NOTA: o bairro fabril das OGMA em Alverca são as lendárias vivendas cor-de-rosa na Rua da Estação, onde se têm instalado ao longo dos anos associações de apoio social e cultural e que muitos adultos alverquenses de hoje frequentaram enquanto crianças nos anos 80 e 90!
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#02 Moinho de Maré na Quinta do Cochão
PROPOSTA NA REVISÃO DO PDM » Moinho de Maré na Quinta do Cochão está registado como Imóvel com Interesse no PDM em vigor, mas está omisso na proposta de revisão
FUNDAMENTOS DA CRÍTICA » deverá ser protegido como registo patrimonial
PROPOSTA DE ALTERAÇÃO » incluir Moinho de Maré na Quinta do Cochão na lista de "Outros Imóveis com Interesse - Património Industrial"
*
#03 Estação Ferroviária de Vila Franca de Xira
PROPOSTA NA REVISÃO DO PDM » está omissa
FUNDAMENTOS DA CRÍTICA » atendendo à intenção pública da câmara expressa "Interface rodo-ferroviário na futura Estação de Vila Franca de Xira" (in Vol. II, Síntese do Diagnóstico, pág.54) deverá ser salvaguardada a existente como registo patrimonial
PROPOSTA DE ALTERAÇÃO » incluir Estação Ferroviária de Vila Franca de Xira na lista de "Outros Imóveis com Interesse - Património Civil"
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#04 Cine-Teatro Salvador Marques
PROPOSTA NA REVISÃO DO PDM » está omisso
FUNDAMENTOS DA CRÍTICA » embora não se encontre classificado, tem um valor patrimonial reconhecido por várias entidades, tratando-se dum edifício carismático na zona ribeirinha de Alhandra, a precisar urgentemente de recuperação (mais informação: http://teatrosmarques.no.sapo.pt/)
PROPOSTA DE ALTERAÇÃO » incluir Cine-Teatro Salvador Marques "Outros Imóveis com Interesse - Património Civil"
*
Se quiserem aceder aos documentos que estão em dicussão é aqui http://pdm.cm-vfxira.pt... Recordo que "quando as reclamações, observações, sugestões ou pedidos de esclarecimento sejam subscritos por mais de 20 cidadãos, a câmara municipal deve promover a publicação das respostas em dois jornais diários e um regional, quando exista." (ver Diagrama de Procedimentos da DGOTDU)...
*
Informem-se e participem... Uma sociedade amplamente participada caminhará para um futuro melhor!!

(artigo em construção... aceitam-se contributos)
MDC
+ ARTIGOS SOBRE A REVISÃO DO PDM:
quinta-feira, 9 de outubro de 2008

...revisão PDM #02: QUINTAS...

...objectivos turísticos em questão...

Propõe-se que, uma das linhas de força orientadoras do novo PDM, seja a "animação" turística do concelho... As quintas serão um dos principais meios para atingir esse objectivo, associadas a uma estratégia ambiental "Carbono Zero"... Assim à partida parece-me interessante, mas a questão é como!?

Será que Vila Franca de Xira, concelho de tradição industrial, integrado na Área Metropolitana de Lisboa, tem atractivos turísticos tão potenciais que justifiquem esta aposta!?

Acho que o que me respondeu a presidente, tinha a ver com uma vaga ideia de apoiar os idosos!!! Mas vão fazer lares!? Turismo Rural Sénior!? Apresentação de colchões ortopédicos com direito a passeio no varino "Liberdade" e bufett!?

Seriam mais razoável apostar em Quintas Pedagógicas! Não sendo propriamente turismo, sempre evitava que as nossas crianças começassem a desenhar as galinhas como frangos assados!
Agora, ainda estou para ver se afinal vamos ter Campos de Golf, Quintas de Eventos (casamentos e baptizados) e Aventura (paintball e afins)...
Mas e a história do Carbono Zero!? O que é que uma coisa tem a ver com a outra!?
Vou tentar inteirar-me das propostas concretas na documentação (se é que existem)... Entretanto, espero que nas próximas sessões de esclarecimento surja mais informação! Fica aqui o tópico para irem pensando também...

(artigo em construção... aceitam-se contributos)
MDC
+ ARTIGOS SOBRE A REVISÃO DO PDM:
quarta-feira, 8 de outubro de 2008

...revisão PDM #01: HABITAÇÃO...

...o número de fogos previsto...

Como todos sabem a construção civil, com toda a especulação imobiliária associada, é uma actividade muito lucrativa! Em Portugal então, tem ultrapassado os limites do razoável! Com muita frequência ouvimos falar em excesso de construção/número de fogos.

Apresento algumas fontes baseadas em notícias recentíssimas:
  1. "...oferta de casas novas e usadas na região da Grande Lisboa é excedentária e distorcida da realidade da procura. (...) Embora o excesso de oferta de habitação seja um problema que se estende à maioria das cidades portuguesas, a situação dos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa (AML) é a mais crítica." (in Diário Económico, 19.Set.2008)
  2. "Em Portugal, foram construídas e postas à venda mais 70 mil casas do que o bom senso aconselhava e como a Banca foi mãos largas na concessão de crédito (...) "Em Portugal, atingimos números impensáveis: 120 mil habitações por ano, quando deveríamos estar nas 50 mil"" (in Jornal de Notícias, 07.Out.2008)
Este fenómeno provoca danos profundos na qualidade de vida das populações.

Por exemplo:
  1. o esvaziamento e a degradação de áreas urbanas consolidadas (o exemplo crasso está na Baixa Pombalina);
  2. áreas de habitação novas desligadas do restante tecido urbano, sem identidade, monofuncionais (onde o habitante anónimo chega, dorme e sai, normalmente de carro);
  3. no caso concreto dos concelhos limítrofes de Lisboa, temos áreas residencias repletas de cidadãos que vivem um ritmo diário pendular (descanso no subúrbio «» trabalho em Lisboa), perdendo de 1 a 2h por dia em transportes (degradação da vida familar, social e ambiental)

O concelho de Vila Franca de Xira integra-se nesta dinâmica e tem crescido também à custa do esvaziamento de Lisboa!

A análise técnica da Comissão Técnica de Acompanhamento (CTA) da proposta, refere o seguinte:

  1. Capacidade em n.º de fogos das áreas de urbanização programada habitacionais
    e aglomerados rurais previstas no plano: 14 512
  2. Capacidade em n.° de fogos resultante da colmatação das áreas urbanizadas
    existentes e da concretização dos alvarás emitidos: valor não disponibilizado
  3. Fogos devolutos existentes: 6 186
  4. N.º total de fogos disponíveis para o horizonte do plano (valor por defeito): 20 698
(artigo em construção... aceitam-se contributos)

MDC
Ontem, em Alverca (que é a cidade onde moro, concelho de Vila Franca de Xira), aconteceu a Sessão Pública de Esclarecimento (nome atribuído pela CMVFX ao que deveria ser um Debate com a População) sobre as propostas implícitas na proposta de revisão do Plano Director Municipal*1!
*
Gostava de vos poder dizer que foi bom, que a população está a participar na construção deste documento fundamental! Mas não é possível... De facto, os políticos no poder estão-se pouco borrifando para as nossas opiniões... Vivemos numa ilusão de democracia!
*
A documentação disponível, tem um formato e volume (ver aqui) extremamente difícil de digerir, o que não permite um estudo atempado, face ao tempo e moldes previstos para a Discussão Pública. Ontem, durante mais de duas horas falaram a presidente da câmara e 2 técnicas, e no tempo de debate madrugada dentro, enquanto a sala gelada se ía esvaziando, falaram apenas 13 cidadãos (cerca de 0,04% da população).
*
Para o documento mais determinante para o futuro do concelho, nós - a população - tivemos 15 dias para a participação preventiva (anterior ao elaboração da proposta), 5 dias para conhecer o plano e temos agora, 30 dias para a Discussão Pública! Estes são os mínimos definidos pelo Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial*2... Disse ontem e repito, que qualquer câmra verdadeiramente interessada em dar a conhecer as suas propostas e a construir o plano com a população, ampliaria estes prazos!
*
Claro que ninguém da câmara nos disse, mas eu sei que "quando as reclamações, observações, sugestões ou pedidos de esclarecimento sejam subscritos por mais de 20 cidadãos, a câmara municipal deve promover a publicação das respostas em dois jornais diários e um regional, quando exista." (ver Diagrama de Procedimentos)... Eu, vou já começar a escrever as minhas propostas! Ganhem um bocadinho de tempo... Informem-se, só uma sociedade amplamente participada poderá construir um futuro melhor!
*
*1 Plano Director Municipal: instrumento de planeamento “que estabelece o modelo de estrutura espacial do território municipal, constituindo uma síntese da estratégia de desenvolvimento e ordenamento local prosseguida, integrando as opções de âmbito nacional e regional com incidência na respectiva área de intervenção.” (Decreto-lei n.º 380/99)
*2 Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial: foi alterado em Março de 2007, até aí, os prazos mínimos eram mais do dobro do que são hoje... Podem verificar os Decretos, no Artigo 77.º referente à Participação da população nos Planos Municipais de Ordenamento do Território (sejam eles PDM, PP ou PU), resumo os prazos mínimos:
Decreto-Lei nº380/99 (o que foi alterado)
30 dias » para a participação preventiva
15 dias » para anunciar o início da discussão pública
60 dias » para a discussão pública
Decreto-Lei nº316/2007 (o que foi vigora agora)
15 dias » para a participação preventiva
05 dias » para anunciar o início da discussão pública
30 dias » para a discussão pública para PDM
22 dias » quando se trata de Plano de Urbanização ou de Pormenor
MDC
sexta-feira, 26 de setembro de 2008

...classificação de públicos...

Às vezes (e não poucas) dou-me ao trabalho de ir ler legislação... (sempre com um propósito prático, não se assustem que ainda mantenho interesse pela vida!) É absolutamente incrível o que este conceito encerra: acordãos, anúncios, avisos, decretos (grande família), despachos (nada despachados), leis, resoluções e outras comunicações... É um mundo complexo e, às vezes, desesperante! Acho francamente que, se é objectivo dos envolvidos que se viva numa pacífica e participada legalidade, toda esta parafernália de textões, divididos em dezenas de capítulos, artigos e alíneas, revogados e alterados, devia ser no mínimo, acessível, clara e sucinta... Mas, qual quê, é a ... da confusão!
*
Desabafos gerais à parte, vamos aos factos!
*
Venho contar-vos (porque admito que muitos de vós não saibam e não vos quero surpreendidos na ilegalidade um dia destes) que segundo as regras para a classificação de espectáculos e divertimentos, passo a citar:

a) Os menores de 3 anos não podem assistir a quaisquer espectáculos ou divertimentos públicos;
b) Serão classificados «Para maiores de 12 anos» todos os espectáculos classificados em escalão não inferior mas que terminem depois das 22 horas;

Estas 2 alíneas fazem parte do Artigo 3.º do Decreto-Lei 386/82... Mas há mais:

1 –Serão classificados «Para maiores de 4 anos», os espectáculos desportivos e de circo, os espectáculos tauromáquicos, os concertos musicais e similares e os espectáculos de ópera e de bailado;

2 - Os espectáculos referidos no número anterior poderão ser classificados em diferente escalão etário pela Comissão de Classificação de Espectáculos quando, por sua iniciativa ou após requerimento fundamentado do promotor do espectáculo a solicitar novo visionamento, se conclua que as características do espectáculo o aconselham.

3 - Será «Para maiores de 12 anos» a frequência de lugares públicos destinados a bailes populares.

Estes pontos estão no artigo 4.º do mesmo Decreto-Lei 386/82...
*
Então resumindo, o "teatro para bebés" e a "música para bebés" são, à partida, ilegais.
A partir das 22h, a criançada já tem que estar, de preferência em casa, de pijaminha! Bailaricos... só para os mais crescidinhos (os putos só sabem sujar a pista com o algodão doce, pá)!
*
Agora digam-me cá... Vocês já se portaram mal!? Seus malandrecos!!! Eu é que tive sorte, quando saiu esta lei já tinha 3 anos... Aquilo é que foi curtir!
*
Claro que os artistas (circenses, músicos, bailarinos, actores ou toureiros), podem sempre preencher o requerimento, aguardar visita do inspector e respectivo parecer... Se bem que eu acho que preferem pagar as multas... Ainda por cima, são em escudos!!! (bom, admito que já tenha saído uma portaria qualquer a fazer a conversão das multas constantes na legislação anterior ao advento do euro, acautelem-se)
*
Bom, o que eu acho mesmo, é que esta lei já com 25 anos, está ultrapassada e ainda bem! Hoje a arte entrou na pedagogia, comprovou-se que sensibilizar uma criança através da arte é transmitir-lhe ferramentas preciosas de compreensão e acção sobre o mundo! Acho até, que antes de lhes darem os computadores, deviam garantir que elas já olharam bem para as manifestações artísticas ancestrais que o ser humando pode fazer ao vivo e a cores...
MDC
quinta-feira, 25 de setembro de 2008

...presos, visitantes e agora hóspedes (não os anteriores, óbvio!!)

Este ano em Junho, depois de casada de fresco e como não tinha condições em € para ir para fora visto sermos 3 pessoas, resolvi ir dar "uma volta" pelo nosso país e escolhi começar pelo Alentejo.
Chegados a Beja estacionamos no centro histórico onde vimos logo um edíficio secular com um aspecto fantástico onde entravam e saíam inúmeras pessoas, que depois de um olhar atento percebíamos que se tratavam dos chamados "camones".
Contudo ignorei esse facto e fui ver o que se tratava, então tinha uma placa toda bonita que dizia "POUSADAS DE PORTUGAL".O Rodolfo como qualquer homem que se preze disse-me logo: "Vai lá tu ver quanto custa e as condições e tal...", e eu lá fui com o meu ar turístico.
Abri a enorme porta de vidro e levei com o fresquinho do ar condicionado que em Beja soube mesmo bem, atrás do balcão estavam umas senhoras de farda a condizer com todo o arranjinho envolvente e o aspecto do hall era fantástico.
Então lá me aproximei e perguntei: "Quanto custa uma noite em duplo e uma criança de 2 anos?"Ao que me respondem, com o ar mais natural deste mundo: "200,00 € preço de balcão".
Confesso que pensei que tinha ouvido mal, dei meia volta ainda pálida de espanto e quando cheguei cá fora senti-me muito desiludida por ter de pagar 200,00 € para dormir ou sequer entrar num sitio em que todos deveríamos de ter acesso. Assim sendo voltámos para o carro e fomos dormir à Pousada da Juventude de Beja, que não tendo o luxo e a ostentação que emanam da Pousada de Portugal, nem tão pouco a história, tinha um preço aceitável 29,00€ em duplo com W.C.
Por outro lado, passo férias no Baleal, a 3Km de Peniche, desde sempre. Desde sempre também que todos os anos faço um passeio ao Forte de Peniche, para ver as diferentes exposições, para passear e disfrutar da vista e para relembrar tudo o que ali se passou enquanto prisão no tempo da ditadura salazarista em Portugal.
Esta notícia não pode deixar-me mais triste e desapontada, porque primeiro vão privar os comuns mortais que sobrevivem com uns miseros 600,00€ por mês de poderem entrar num património que é de todos e depois porque mais uma vez se vai apagar a história, e principalmente uma história que todos deveriam saber e lembrar para que não se repita.
Vai ser no mínimo estranho passar pela grandiosa porta do Forte e não poder entrar... e não poder mostrar à Alice as ondas que rebentam fortemente contra as muralhas e os barcos dos pescadores que vão para a faina, porque a isso só terá acesso que tiver conta bancária que o permita.
É o país que temos!!!
OSC
quarta-feira, 24 de setembro de 2008

...pousadorismo elitista...

O mosteiro de Flor-da-Rosa é um outro exemplo (para além do já referido Forte de Peniche) de como se pode transformar um espaço do domínio público, em algo apenas ao alcance das carteiras mais recheadas.

Ainda me lembro dos dias em que do alto do mosteiro, podia disfrutar de uma paisagem magnífica, ver o local onde repousavam os antigos sinos cinzelados com a cruz de Malta, e por vezes, espreitar o ninho de cegonhas que todos os anos ali era habitado (provavelmente por casal residente, sem ter que pagar taxas de ocupação).

Agora já não posso. E não é porque as cegonhas regressaram de "férias" para nificarem no alto do torreão, mas porque fizeram daquele local uma pousada, e trancaram todos os acessos. O que mais me entristece, é o facto da pousada só tratar dos locais afectos à mesma (leia-se aqueles que são visíveis ao cliente da pousada), ficando o restante ao Deus-dará.

Numa última tentativa para chegar ao topo do mosteiro, e enquanto subia uma escada em caracol (daquelas que o normal turista desconhece), dei de caras com um gradeamento, fechado a cadeado. O nojo daquele sítio daí para cima era indescritível. Borrachos mortos, penas, fezes dos pássaros, tudo acumulado...até me espantei como o cheiro não era pungente. Sinónimo de que toda aquela matéria já estava ali há imenso tempo, e que os germes já tinham cumprido o seu trabalho com diligência.

Temos portanto um monumento a menos, e uma pousada a mais. O Estado deixa de ter despesa de manutenção, para passar a ter lucro da actividade de empresa privada. Parece-vos uma boa troca?
LMG
Eu nunca estive em nenhuma Pousada de Portugal, e tu!? No entanto, já estive em muitos castelos, fortalezas, conventos e igrejas... Na maior parte delas, tive até o privilégio de contactar com história e arte, e vim de lá mais culta e contente!
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Um dos fortes que visitei, foi precisamente o visado na notícia que aqui quero comentar, falo do Forte de Peniche, que funcionou como prisão desde o séc.XIX até 1974 (albergando muitos presos políticos no tempo da ditadura de Salazar)... Não fiquei desapontada com o vazio e a adulteração como fiquei na Fortaleza de Sagres, que me fez escrever o artigo "...fraca fortaleza...".
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No Forte de Peniche funciona efectivamente o Museu Municipal de Peniche, mantendo-se minimamente conservadas e abertas ao público, salas e celas que nos permitem ter uma ideia daquela que era a realidade enquanto prisão. Além disso, algumas exposições demonstram também o que foi a luta e o sofrimento de muitos homens e mulheres, que dispostos a abdicar da sua vida pessoal, familiar e da segurança física, procuravam restituir alguma dignidade a este país...
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Agora, anuncia-se a assinatura do protocolo que visa a transformação do Forte em mais uma Pousada de Portugal (FONTE: OESTE ONLINE; VISÃO)... E eu fico triste e preocupada! É que esta parece-me mais uma daquelas acções que retiram património acessível a quase todos, para satisfazer apenas alguns, disponíveis para pagar a sua estadia nesse espaço, com direito a luxo (ou charme, como agora gostam de chamar) e mordomias...
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Deixem-me dizer-vos que, por exemplo, o Castelo de Óbidos (que é dos tais que só conheço por fora), foi adaptado para uma oferta hoteleira de apenas 9 quartos e um restaurante. Presumo ter tarifas bem acima do valor suportado pela maioria dos bolsos (quarto duplo: entre €190 e €320 por noite » FONTE)...
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Lá está, admito que os valores avultados dos custos de recuperação e manutenção destes espaços, sejam assim compensados com um volume de receitas condizente (muito embora tenha ideia, que com uma boa gestão dos dinheiros públicos, não era preciso chegar a esse ponto)... O que eu não quero admitir, é que os espaços fiquem vedados aos visitantes que apenas querem conhecer e saber mais... Espero que, o Arq. Siza Vieira (responsável pelo projecto de arquitectura), bem como as equipas especializadas nesta e outras "requalificações", não se esqueçam de mim, dos meus eventuais descendentes e daqueles que, como nós, poderão não querer mais do que uma tarde ou uma manhã a passear pelos espaços que são património nacional, com acesso à informação neles retida e proporcionada...
MDC
quinta-feira, 11 de setembro de 2008

...robotarium e outras ideias originais...

+ INFO » sítio de Leonel Moura (o autor)

Existe um estranho encantamento generalizado quando se fala em "único no mundo"... Como se o facto de um fenómeno ser único no mundo fosse suficiente para se lhe atribuir valor!

Na minha opinião, importa fazer uma reflexão simples baseada na pergunta "Porque será que isto ou aquilo é único no mundo!?". Será na resposta que se encontra o valor, a pertinência ou a patetice da questão. Veja-se por exemplo, o homem com as unhas mais compridas do mundo! Facilmente e felizmente será raro... porque é simplesmente pateta!

Para mim (independentemente da minha opinião pessoal sobre o objecto), o Robotarium em Alverca e as suas desventuras, resultam da falta desta reflexão prévia! Os equipamentos e as boas ideias para a comunidade de um lugar, devem ser encontradas em conjunto com essa comunidade! Creio mesmo que este é o segredo do sucesso... A par da oportunidade desta ampla conversa, poderão seguir-se bons exemplos testados e acarinhados, evitar e perceber os menos bons... Só isso já será um mundo de ideias por explorar!

... comentário publicado no Fórum Vilafranquense ... MDC
Entretanto encontrei outro artigo sobre o mesmo assunto, onde se lê:

"Num dos últimos ataques o inovador projecto do artista Leonel Moura perdeu um dos vidros, facto que, segundo a autarquia vila-franquense, já acontece pela quinta vez. Um dos vidros continua partido. Ao contrário do que inicialmente se pensava, nenhum robot foi roubado da infra-estrutura." (artigo completo no Fórum Vilafranquense)

Que maus... Não vos parece o auge do desprezo!?... Mas vendo bem as coisas, quem é que precisa de um robot em casa que não faça coisas como: pão de ló de Alfeizerão, dobrar as cuecas, aspirar ou retirar os borbotos às malhas!?

Ah, só mais uma coisa... E o nome que escolheram!? Por quê a terminação em "...ium"!? Robotarium... Vem do latim!? Do patrocínio do BCP!? Sem resposta aparente para a formação da palavra (que provavelmente reside apenas na vontade de inovar do autor), rapidamente surgiu a tradução para o primeiro (e talvez o último, depende do real valor!), robotário do mundo... Robotário!!? Ok, fiquemos por aqui...
MDC
segunda-feira, 8 de setembro de 2008

...quem nunca fotocopiou...

... não atire o primeiro livro... à cabeça destes senhores!!! Todos os outros... Ataquem!

É que a "Inspecção-Geral das Actividades Culturais apreendeu ... 18.555 livros" (FONTE: IOL diário)...

Fico indignada! Compreendo que é o que está na lei, mas fico indignada! Eu não conseguiria terminar a licenciatura sem as resmas de fotocópias que adquiri... Em geral até prefiro fotocópias, para poder ler no comboio capítulos isolados (que sempre pesam menos na mochila e custam menos a sublinhar)... Mais de metade dessas centenas de fotocópias jazem agora ao lado da minha impressora... Irão servir para impressões de rascunho (eventualmente de livros em pdf) e depois serão para reciclar! (ou seja, acaba por ser uma solução aparentemente mais ecológica)

Como se não bastasse, hoje soubemos também que os "manuais escolares aumentam 5,5% este ano" (FONTE: TVI)...

O que se verifica actualmente é o aproveitamento por parte das editoras, da obrigatoriedade da aquisição dos manuais, para lucrarem boas maquias! Até aposto que já têm "delegados de propaganda escolar" atrás dos professores com brindes fantásticos para escolherem os seus produtos!

Alega-se o direito à propriedade intelectual! E eu alego o direito à liberdade intelectual, o direito ao conhecimento! Valham-nos arquivos virtuais como o Domínio Público, o Projecto Gutenberg, o futuro Europeana (supostamente disponível em Nov.08), ou até mesmo a Wikipedia (com as devidas reservas, claro) .. Mas quem é que aguenta ler no computador!? E quem é que aguenta os preços dos tinteiros!?

Não está fácil esta coisa de querer saber mais, chiça!!!

MDC